
Sempre desconfiei um pouco de devoção exacerbada. Seja no sentido que for: religioso, em relação à uma pessoa, um ídolo, um livro, etc. Eu, logo eu. Obcecado pelo livro Eu, de Augusto dos Anjos e pelo poeta. Pela voz da Billie Holiday. Por ornitorrincos. A lista continua, e é longa...
Eu me excluo dos devotos de maneira bem simples: o que me atrai nas coisas que gosto muito são as semelhanças que encontro em relação a mim. Eu, sempre tão diferente, desde criança. Em todos os sentidos. Eu, torto, eu, sem par, eu, a peça que não se encaixa em quebra-cabeça algum quando o que eu mais queria era fazer parte de alguma coisa. Qualquer coisa.
Ornitorrincos são mamíferos que botam ovo, têm bico de pato e veneno nas patas (somente os machos). Augusto dos Anjos era triste porque não achava semalhança nos olhos de ninguém. A Billie, coitada, foi do prostíbulo ao estrelato sem deixar de ser quem era ou adequar sua voz ao esquemão da época. Olhar, escutar, ler essas pessoas me faz acreditar que talvez um dia eu, quem sabe, possa vir a ser alguém.
Mas saindo da defensiva e indo ao ponto onde eu queria chegar: todo santo dia tenho escutado gente falando de Deus.
Deus proverá. Deus vai fazer. Deus vai acontecer.
Deus é tendência.
Aleluia!
Deus proverá. Deus vai fazer. Deus vai acontecer.
Deus é tendência.
Aleluia!
Sem querer machucar ninguém, na maioria dos casos eu acho que Deus é só muleta de incompetente.
"Não aconteceu porque Deus quis"
"Deus sabe o que é melhor"
"Seja o que Deus quiser"
Porra nenhuma. Esse Deus dessas pessoas que usam isso a torto e direita não é o Deus que elas acreditam estar adorando. É só um jeito fácil de desistir, de resignação, de não querer admitir suas limitações porque "há uma força maior que impediu aquilo".
Deus, destino, maktub, etc., tudo não passa de uma desculpa para as pessoas enterrarem suas limitações. Não precisar pensar ou admitir suas fraquezas é realmente uma delícia. Inclusive a sociedade faz uso, desde sua origem, de drogas para fugir da realidade. Esse Deus que eu tenho visto por aí pra mim equivale a qualquer uma delas.
Eu fico aqui, sem Deus e sem drogas.
Escutando Billie Holiday, rabiscando ornitorrincos e relembrando mentalmente versos onde já me vi um dia.
6 comentários:
concordo: devoção demais é muleta. E,mais, tudo em excesso faz mal. Por isso, sigo aqui tb nessa linha de eu, torta, eu, sozinha, eusinha do meu jeito meio carta fora do baralho, mas autêntica nas minhas buscas e decisões. Adorei o texto.
Ah, e seja o que Deus quiser (rs)
///~..~\\\
amigo, eu concordo no q vc disse...semana passada assisti um documentario de um judeu e ateu falando sobre as principais religioes e as afetações q sua influencia causa. Fora as entrevistas..deixando padres, bispos, apstores e rabinos com as calças nas maõs...
viva o onitorrinco
Um dia eu comecei a acreditar em Deus, mas foi tão, tão, tão libertador!
Calma, eu explico: isso tudo porque eu comecei a acreditar que Deus sou eu! =)
(e todos, claro)
Só a gente sabe o que é pecado, só a gente pode se dar resignação, só a gente pode se louvar, se abençoar. Só a gente frequenta a igreja de cada um (a minha é uma mistura da minha casa, amigos, uma cachoeira e um bar), e a missa é das 00 da manhã até às 12 da noite, todo dia!
Amém!
EU prefiro acreditar no relativo. A crença de que não há Deus, por exemplo, pra mim, é uma forma de radicalizar. Vou mais pela linha do Einstein:
"Our situation on this earth seems strange. Every one of us appears here involuntary and uninvited for a short stay, without knowing the whys and the wherefore. In our daily lives we only feel that man is here for the sake of others, for those whom we love and for many other beings whose fate is connected with our own." ... "The most beautiful and deepest experience a man can have is the sense of the mysterious. It is the underlying principle of religion as well as all serious endeavour in art and science. He who never had this experience seems to me, if not dead, then at least blind. To sense that behind anything that can be experienced there is a something that our mind cannot grasp and whose beauty and sublimity reaches us only indirectly and as a feeble reflection, this is religiousness. In this sense I am religious. To me it suffices to wonder at these secrets and to attempt humbly to grasp with my mind a mere image of the lofty structure of all that there is." Einstein's speech 'My Credo' to the German League of Human Rights, Berlin, autumn 1932, Einstein: A Life in Science, Michael White and John Gribbin, Page 262.
Então... Há muito tempo eu deixei deus para trás junto com a religiosidade. Às vezes, eu digo no meu caso, as pessoas trazem essa cultura com os pais e fica difícil se desvencilhar, já que o processo é longo. Eu demorei muito para me aceitar, e esperei MUITO tempo para que deus me curasse de algo que está em minha essência. Nada foi feito. Então eu apenas decidi viver e ser quem eu sou. SEM MEDOS.
Amo Augusto dos Anjos e me identificava muito com ele.
Bjs
Viu como a gente eh umsoh, meixmo!
Entao, ornitorrinco eh meu bicho, eu vou tatuar um, vamos? serio, soh porque ele dare todas as leis da natureza, sei la. eu gosto muito. e tb tenho escrito muito sobre o torto e o que nao encaixa, depois le meu novo texto. eu te amo e acho que Deus fez a gente sim, e dai ele deixou cair e quebrou no meio, dai a gente foi cada um prum laido, saicas? enfim, eu te amo e to com saudades e nem sei o que tenho escrito rs.
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